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19 de abril de 2017 | MENOR | MAIOR | |

"Fui estuprada", revela Titi Müller em evento sobre assédio

Apresentadora dividiu o palco com outras ativistas que combatem a violência contra as mulheres

Na terça-feira (18), aconteceu no auditório da Unibes Cultural, em São Paulo, o evento ‘A Revolução será Hashtagueada: Como a Internet Mudou a Conversa sobre Assédio no Brasil’.

Cerca de 60 pessoas na plateia – apenas quatro homens – debateram o tema com a fundadora da ONG Think Olga, Juliana Faria, a ativista do feminismo e contra o preconceito racial Stephanie Ribeiro, a jornalista que denunciou ter sofrido assédio do cantor Biel, Giulia Pereira, e a apresentadora Titi Müller.

 

Titi protagonizou o momento mais dramático, quando assumiu, pela primeira vez, ter sido vítima de estupro. “Fiz anos de terapia e nunca disse disso antes”, desabafou a artista, de 30 anos. “Eu só dizia ‘assédio’, não falava a palavra estupro.”

Emocionada, ela recebeu o apoio das outras convidadas e do público, e agradeceu a oportunidade de falar abertamente sobre o assunto. Antes do evento, as quatro debatedoras conversaram com o blog.

Titi Müller

Uma mulher famosa, com visibilidade na mídia, tem obrigação de denunciar assediadores e apoiar campanhas contra o machismo?

Qualquer mulher, famosa ou não, tem que fazer o que é coerente para ela. É importante apoiar campanhas contra o machismo sim, desde que venha de uma percepção e desejo de mudança genuínos.

Caso fosse assediada hoje, denunciaria na imprensa?

Todas as mulheres que conheço já passaram por algum tipo de assédio no trabalho, independentemente da profissão. Todos os dias sofremos diferentes níveis de assédio. Quando entra para a esfera criminal, deve ser denunciado sim.

Juliana Faria

Juliana Faria comanda campanhas de denúncia dos vários tipos de assédio contra a mulher
 
Juliana Faria comanda campanhas de denúncia dos vários tipos de assédio contra a mulher
Foto: Unibes/Divulgação

Como a ONG atua para ajudar mulheres vítimas dos vários tipos de violência?

A Think Olga é uma ONG cujo objetivo é o empoderamento feminino por meio da informação. Nossa atuação se dá por meio da educação e conscientização. Ou seja, na criação de materiais, campanhas e ferramentas que tragam esclarecimento do que são essas violências, como identificá-las, como fazer a denúncia. Temos um folder sobre assédio feito em parceria com a Defensoria Pública de SP, um mapa colaborativo do Brasil que reúne denúncias de assédio e estamos finalizando um documentário sobre o tema. Além da campanha ‘Chega de Fiu Fiu’ (de combate ao assédio em locais públicos), temos a campanha ‘Primeiro Assédio’, que fez o País discutir de forma mais madura e responsável esse tipo de violência de gênero (a partir do ass édio na internet sofrido por uma menina de 12 anos, participante do ‘MasterChef Júnior’).

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro lamenta que primeira protagonista negra de ‘Malhação’ tenha sido rejeitada por parte do público
 
Stephanie Ribeiro lamenta que primeira protagonista negra de ‘Malhação’ tenha sido rejeitada por parte do público
Foto: Unibes/Divulgação

A mulher negra sofre duplo preconceito, pelo gênero e a questão racial. Vê algum avanço no combate a essa discriminação?

É muito difícil mensurar. De um lado, vemos mais representatividade de mulheres negras em espaços de fala e destaque, no próprio feminismo inclusive. Por outro lado, nós, mulheres negras, continuamos morrendo mais do que mulheres brancas. O feminicídio diminuiu para brancas, mas, para nós, progrediu. É complexo pois há avanços muito significativos, como sermos a maioria das inscritas no Prouni (Programa Universidade para Todos), ou seja, estamos acessando o ensino superior, porém continuamos ganhando os piores salários e/ou salários muito mais baixos do que pessoas brancas nos mesmos cargos. Uma evidência disso é que há no País apenas uma negra em um cargo de CEO (diretor executivo) de uma grande empresa. Acredito que, mesmo diante de avanços, enquanto a gente não tiver o direito à vida garantido, não ser emos vistas e tratadas como seres humanos. A dignidade que negros querem no Brasil é de poder viver, um direito básico. É difícil falar de avanço quando todo dia morre uma Maria Eduarda (estudante carioca, de 13 anos, atingida por tiros na quadra de sua escola, no final de março).

A TV sempre foi acusada de apresentar a negra apenas como objeto sexual ou em condição submissa, em papéis de empregada ou escrava nas novelas. Isso está mudando?

Acredito que os estereótipos ainda são muitos. Por exemplo, a primeira protagonista negra de ‘Malhação’, o público não aceitou e também não funcionou colocá-la como faxineira. A adesão e empatia do público com a personagem Joana mudou muito quando ela saiu desse espaço que, em se tratando de atrizes negras, é um estereótipo. Contudo, a personagem da atriz Aline Dias é uma pessoa sempre muito forte. A força para mulher negra tem outro significado, chega a ser desumanizadora. Mulheres negras sempre devem se controlar e serem fortes diante de situações. Vemos isso, por exemplo, na personagem Annalise Keating (Viola Davis), do seriado ‘How To Get Away With a Murder’ (Sony/Netflix). Já em uma novela teen ainda se constrói personagens negras muito duras, e nas novelas brasileiras se insiste no papel da empregada, da escrava, do amigo negro, do negro isolado sem família. Esses ‘errinhos’ contínuos numa narrativa de negros só serão resolvidos quando tivermos negros escrevendo esses roteiros, tratando personagens negras com mais naturalidade em funções amplas e com personalidades subjetivas.

Giulia Pereira

Giulia Pereira teme voltar a trabalhar um ano após denunciar assédio do cantor Biel
 
Giulia Pereira teme voltar a trabalhar um ano após denunciar assédio do cantor Biel
Foto: Unibes/Divulgação

Você pode ser considerada precursora de uma onda recente de denúncias de assédio envolvendo famosos. Qual o preço que pagou pela coragem de revelar o que passou?

Não acredito ser precursora, mas se ao menos uma mulher se sentiu encorajada a denunciar ou expor um agressor por minha conta, para mim já é suficiente. Hoje, quase um ano depois do ocorrido, ainda não voltei para o mercado de trabalho e acredito que isso tem muito a ver com um receio meu mesmo de que ninguém vai querer me contratar por causa disso, para evitar confusão ou qualquer coisa assim. No fim das contas, o que mais me prejudicou foi a minha própria insegurança.

Há quem acuse as mulheres de serem desunidas nas causas femininas. Qual sua opinião como mulher e jornalista?

Eu acho que, apesar de mudanças claras, ainda tem muito disso. Nós somos criadas em uma sociedade machista, então é comum que mulheres reproduzam um pensamento machista no dia a dia. E é aí que a mídia tem que interferir. Muito se fala em doutrina feminista, em querer forçar uma ideologia e não é por aí. As coisas só se tornam comuns quando elas são tratadas com normalidade. O beijo gay vai ser sempre tabu enquanto não ganhar espaço e ser tratado como banalidade na TV, assim como a ideia de que mulheres merecem ser tratadas com respeito e igualdade nunca vai ser considerado o óbvio enquanto o feminismo for discutido apenas dentro de uma bolha.

"Fui estuprada", revela Titi Müller em evento sobre assédio
Fonte: Querência em Foco com TERRA

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