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05 de dezembro de 2017 | MENOR | MAIOR | |

Mayana Moura sobre transtorno bipolar: 'Dias fora de mim'

Mayana Moura sobre transtorno bipolar: 'Dias fora de mim'

Quatro vezes. Esse foi o número de internações em hospitais psiquiátricos pelo qual Mayana Moura precisou passar para entender, depois de várias crises de mania e depressão, que é bipolar. E do tipo mais grave.

 

Da última reclusão até hoje transcorreu pouco mais de um ano. Nesse meio-tempo, ela aceitou se medicar, fez terapia, reaproximou-se da mãe, voltou a morar no Brasil depois de dois anos nos Estados Unidos e mergulhou no trabalho.

 

Após um hiato fora da TV, voltou à Globo como uma cantora de ópera na novela das 6, Tempo de Amar. E concordou corajosamente em falar sobre sua história à Marie Claire, em uma negociação que levou meses, por um motivo nobre: jogar luz sobre uma doença envolta em preconceitos e ignorância.

“Não queria ser bipolar de jeito nenhum. Tive muita dificuldade em aceitar o diagnóstico”, contou uma serena Maya­na em um encontro de quatro horas no mês passado, no Rio. Estava decidida a falar, embora reconheça que tenha pensado várias vezes em desistir.

 

“Há um grande estigma em torno do paciente. De que não possa ser funcional de novo, tanto no ambiente profissional quanto no pessoal. Existe muita incompreensão em torno da doença, por isso prefiro seu nome 'antigo', psicose maníaco-depressiva”, afirma.

 

O transtorno afetivo bipolar tem várias intensidades e se caracteriza por oscilações drásticas de humor: mania (euforia) e depressão. No caso mais grave, como o de Maya­na, a internação é importante, para evitar complicações maiores e risco à própria vida e à dos outros.

“Sou a prova viva de que, com o tratamento certo e apoio de quem nos ama, é perfeitamente possível se recuperar. O que aconteceu comigo não define o que sou.” Diretor artístico da novela, Jayme Monjardim concorda. E vai além: “Trabalhar com ela novamente está sendo uma experiência linda, tanto quanto foi em O Tempo e o Vento (2014). Mayana é um dos grandes talentos de sua geração, uma atriz incrível”.

Sobreviver e recomeçar tornou-se especialidade de Maya­na, 35. Na infância, em um curto período de três anos, a carioca perdeu três das quatro pessoas mais importantes de sua vida, todas em circunstâncias trágicas: o pai, engenheiro; a tia, artista plástica; e a prima, que tinha sua idade. Para aplacar a dor, apegou-se aos animais (tem o hábito de resgatá-los da rua e levá-los para casa) e tornou-se gótica.

 

Foi esse visual dark, em contraste com a pele alva, que encantou Mario Testino, maior fotógrafo de moda do mundo, que a chamou de “nova garota de Ipanema” e a levou a Paris. Do dia para a noite, virou top, fez desfiles importantes, campanha da Chanel. Ser modelo, no entanto, não era sua praia. Mudou-se para Los Angeles e montou uma banda de rock. Mas foi como atriz que se encontrou.

De volta ao Brasil, estourou em Passione (2009), posou para uma capa de Marie Claire, fez outra novela, uma série, um filme, um musical. Uma trajetória meteórica, caso a doença não a tivesse interrompido bruscamente. Agora recuperada, de volta à Globo e à estabilidade pessoal, a atriz não deixa dúvidas de que o triste episódio ficou no passado.

 

“Depois que tornei meu diagnóstico público, muita gente me procurou para contar suas histórias. Essa aproximação está sendo muito recompensadora, só me deu mais certeza de que eu precisava falar sobre o assunto.” Nas próximas páginas, Mayana mostra como aprendeu, repetidas vezes, a recomeçar.

MARIE CLAIRE No ano passado, você descobriu a bipolaridade por causa das crises de mania. Como elas eram?


Mayana Moura Ficava com uma mania de grandeza absurda. Às vezes achava que era o Coringa, outras, uma bruxa superpoderosa, que podia entrar numa casa cheia de dobermanns e que eles não iriam me morder porque eu era especial. Não tinha medo de nada.

MC Depois desse episódio, foi internada [nos EUA, onde morou dois anos]. O que houve quando chegou ao hospital?


MM Não queria dizer meu nome de jeito nenhum. Então disseram: “O.k., vamos te chamar de Jane Raritan” [o nome do hospital era Raritan]. Fiquei feliz porque a minha música favorita do Lou Reed é “Sweet Jane”. Comecei a achar que estava tudo conectado. Aliás, na crise de mania existe isso de achar que nada é por acaso. Tanto que hoje em dia quando acontece uma coincidência, penso “foda-se”. Não alimento mais isso. Antigamente, se eu e você estivéssemos com uma blusa mais ou menos do mesmo tom, já acharia que talvez existisse algo maior por trás.

MC Ficou internada quanto tempo?


MM Nas três primeiras vezes, dez dias. Me medicavam, eu melhorava, me mandavam para casa com prescrições. Chegava e não tomava nada, tinha outras crises, era internada de novo. Vivia num looping. Na quarta, decidiram me segurar. Me colocaram na área mais “punk” da clínica.

MC Precisou de camisa de força?


MM Fui imobilizada algumas vezes. Não queria tirar sangue de jeito nenhum. Dizia: “Se vierem tirar, vou bater em vocês!”. Parti para cima dos enfermeiros e chegaram quatro homens gigantes, me prenderam e tiraram de todo jeito. Aí uma hora desisti de brigar.

MC E como melhorou?


MM Como fiquei mais tempo dessa vez, comecei a me sentir melhor de verdade com a medicação. Depois de quase dois meses, me liberaram. Já em casa, continuei com os remédios e fui melhorando, melhorando... até chegar aqui. Estou tão bem que nem crises de pânico tenho mais.

MC Como a bipolaridade começou?


MM A primeira crise foi em 2015, no Rio. Queria parar de fumar, uma atriz recomendou um remédio [à base de vareniclina]. Não sabia, mas ele tem efeitos colaterais graves, me deixou com sonhos supervívidos, taquicardia. Fiquei dias sem dormir, completamente fora de mim, desmaiei na banheira. Mas o episódio não foi diagnosticado como bipolaridade e sim como um breakdown medicamentoso. O psiquiatra achou que fosse algo momentâneo, relativo ao remédio.

MC Como eram os momentos de depressão?


MM Me prescreveram lítio [muito usado para tratar transtornos bipolares]. Por alguma razão, não me dei bem. Ele me deixou de cama. Não tomava nem banho. Minha mãe tinha que me tirar dali e colocar no chuveiro. Tudo que via me deixava mais deprimida, até fotos de amigos em redes sociais... Aí parei de me medicar.

MC Você perdeu o pai em um acidente de carro quando tinha 5 anos. Lembra dele?


MM Lembro, sim. Era um cara divertido, legal, amoroso. Um bom pai. Não morávamos juntos: ele e minha mãe eram namorados, ela queria muito casar com ele. Tenho certeza de que meu pai também tinha “mania”. Não sei se alguma outra doença psiquiátrica... Digo isso porque adorava carros esportivos. Toda vez que estávamos no carro e ele via um caminhão vindo do outro lado da pista, fazia assim [simula um volante e o vira bruscamente] até quase bater.

MC Como está sendo voltar ao trabalho depois de superar uma crise como essa?


MM Tô feliz da vida de voltar a fazer novela. Amo todo o processo, inclusive decorar texto. Sou super-CDF, adoro bater diálogos com os atores. Imagine frequentar o mesmo backstage que a Marisa Orth? Eu amo ela, acho que ela nem sabe o quanto!

MC Você precisou fazer teste para voltar às novelas?


MM Não, recebi o convite de uma produtora de elenco, a pedido do Jayme Monjardim. Fiquei tão contente! Quando fizemos o filme O Tempo e o Vento, ele disse que iríamos trabalhar juntos de novo. Aceitei na hora! Por ser uma novela de época, 1920, tenho que trabalhar o gestual, o português. É um desafio, não dá para ficar totalmente livre. Faço uma cantora de ópera, tudo a ver comigo. Assisti a muitos vídeos da Maria Callas. Minha voz é normalmente grave, mas quero deixá-la ainda mais.

 

Mayana Moura sobre transtorno bipolar: 'Dias fora de mim'
Fonte: Querência em Foco com LAURA ANCONA LOPEZ

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